BISSOLOTTI, Paula Miyuki Aoki. Ecovilas: Um método de avaliação de
desempenho da sustentabilidade. 2004. 148f. Tese (Mestrado em Arquitetura e
Urbanismo) –Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. 2004.
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A tese tem como objetivo geral apresentar um método de
avaliação de desempenho da sustentabilidade adotado em ambientes urbanos de uma
forma adaptada às ecovilas. O trabalho foi feito a partir do ponto de vista do
usuário da ecovila e está restrito a dimensão ecológica da sustentabilidade. Essa
avaliação tem como base o desempenho do Grau de Satisfação do usuário e Fatores
críticos do Sucesso. Os dados foram obtidos através de questionários aplicados
aos moradores da ecovila Terra Mirim, localizada em Simões Filho, Bahia (essa
ecovila foi escolhida para estudo de caso).
Inicialmente a autora apresenta uma contextualização e
conceituação das ecovilas de forma resumida, destacando alguns fatos históricos
que foram relevantes para o surgimento desse tipo de iniciativa na atualidade,
como o movimento rippie com sua proposta de vida alternativa, e a crise do
petróleo da década de 1970, que proporcionou uma reflexão sobre o sistema
econômico vigente e incentivou a busca por energias renováveis, colocando a
sustentabilidade em evidência, através de discussões, conferências e movimentos
sociais em diversas partes do mundo. Em 1995 surge a GEN (Rede Global de
Ecovilas), instituição que reune essas iniciativas sustentáveis, proporcionando
uma interatividade entre as mesmas, além de organizar e cadastrar essas
experiências, compartilhando-as com a sociedade de um modo geral. Desca também
o crescimento relativo do número de Ecovilas no mundo.
Em 1995 existiam apenas nove experiências cadastradas, hoje
existem mais de 15.000. A autora cita algumas experiências de maior porte como
o Movimento Sarvadaya para a Paz (Sri Lanka), EcoYoff e Coluffa (Senegal),
Auroville (Índia),Federação de Damanhur (Itália), Fundação Findhorn (Escócia),
e algumas experiências brasileiras como o Parque Ecológico Visão do Futuro (São
Paulo), Vila Céu do Mapiá (Acre), Instituto de Permacultura e Ecovilas do
Cerrado (Goiás).
A autora apresenta o conceito de sustentabilidade e
desenvolvimento sustentável, que é a busca do equilíbrio entre os fatores
econômicos, sociais, e ambientais. Destaca a importância de eventos como a
Eco92 e a criação da Agenda 21, usada como base para políticas urbanas
sustentáveis. Apresenta os desafios da sustentabilidade a nível global, sendo o
grande desafio a convivência entre as particularidades regionais e locais com
os processos econômicos globais, e também o desafio para as cidades brasileiras
que ainda possuem políticas urbanas insustentáveis. Sistema de transporte
público precário, destino inadequado de resíduos, desigualdade socioespaciais
cada vez maiores, são alguns dos problemas presentes em todas as metrópoles
brasileiras.
Com relação à sustentabilidade em ecovilas, a autora define
três dimensões: sustentabilidade ecológica, sustentabilidade social/comunitária
e sustentabilidade cultural/espiritual. A ecológica está relacionada ao lugar,
produção e distribuição de alimentos, esquemas de reciclagem, água e esgotos,
sistema integrando de energia renovável, restauração ecológica, permacultura e
bioconstrução. A social/comunitária tem a ver com saúde, economia, política,
educação e comunicação. A cultural/espiritual está relacionada às atividades
artísticas e celebrações.
A autora faz uma breve abordagem de percepção ambiental,
incluindo conceitos de alguns autores muito estudados em Arquitetura como Kevin
Lynch e Gordon Cullen. Comenta sobre como a paisagem ambiental é percebida
pelas pessoas através dos sentidos (olfato, audição, visão, tato) e os impactos
que essa paisagem pode ter, tanto positivamente como negativamente. Fala da
relação entre paisagem natural e artificial, como grande parte das pessoas
atualmente vivem desconectadas do meio natural, e que praticamente não existem
mais locais no mundo onde não exista intervenção ou interferência do ser
humano. Nesse contexto, as ecovilas aparecem como uma alternativa que apesar de
oferecer um modo de vida artificial, é integrado ao meio ambiente.
A autora explica os fatores que permitem avaliar como anda a
sustentabilidade nas ecovilas e qual o grau de satisfação dos usuários. Esses
fatores são diversos enquadrados nas dimensões, atributos, Grau de Satisfação
Relativa e Fatores Críticos do Sucesso abordados pela autora. Estão associados
à percepção dos usuários em relação ao meio ambiente, de que maneira esses
usuários intervêm (quais as técnicas usadas), qual o nível de consciência e
responsabilidade com a sustentabilidade ambiental, qual o nível de interação
entre os usuários no meio externo e interno. Através da análise desses fatores é
medido o Grau de Satisfação Relativa (GSR) e também os Fatores Críticos do
Insucesso (a autora escolheu estudar os fatores do insucesso no caso das
ecovilas por considerar mais útil na identificação das áreas que necessitam de
intervenção).
No capítulo 3 é apresentada a ecovila escolhida para estudo.
A autora comenta que escolheu três ecovilas para fazer o trabalho, sendo elas o
IPEC, Parque Visão do Futuro e Fundação Terra Mirim, por essas serem
consideradas por May East (brasileira membro da GEN e moradora da ecovila
Findhorn) as mais estruturadas, porém as duas primeiras não aceitaram
participar da pesquisa, impedindo a autora de obter resultados comparativos. A
autora concentrou seu estudo na Fundação Terra Mirim. Apresenta os aspectos
gerais da ecovila, comentando sobre a cidade em que está inserida (Simões
Filho-BA), sobre a distribuição dos espaços encontrados no local (templos,
residências, áreas de convivência), e as políticas da ecovila (trabalho com
Educação Integrativa).
No capítulo 4 a autora fala do processo de construção do
método de avaliação, feito através de levantamento quantitativo (observações
técnicas) e qualitativo (questionário preliminar e de pesquisa) de uma forma
integrada. Para o estudo a autora se limitou a sustentabilidade ecológica,
associando-a aos atributos e dimensões (dimensão abrigo, acesso, ocupação e
atributo simbólico, ambiental, humano, técnico, econômico e social). Essa
avaliação foi dividida em duas partes, a primeira refere-se a dados socioeconômicos
e a segunda à comunidade, à unidade residencial e à sustentabilidade ecológica.
Também foram feitas perguntas para descobrir se os usuários absorveram o
conceito de ecovila e os princípios de sustentabilidade, já que a Terra Mirim
está cadastrada na GEN (Rede Global de Ecovilas).
O capítulo 5 mostra os resultados da pesquisa. Os
questionários foram respondidos por 11 moradores (sendo 15 o total). A pesquisa
indicou que a maioria está satisfeita de um modo geral com a ecovila e seus
aspectos de sustentabilidade ecológica (68%). Os gráficos elaborados pela
pesquisadora mostram que a maioria dos moradores são mulheres entre 26 e 45
anos (81,81%), as famílias em sua maioria são de apenas duas pessoas, as
residências variam entre 50 e 100m² e quase todas são feitas de alvenaria (90,90%),
o deslocamento dos moradores é feito principalmente de transporte público
(54,54%). A maioria é de Salvador (63,63%) e vivem na ecovila de 5 a 10 anos
(90,90%). A partir do resultado dos dados coletados a pesquisadora identificou
os pontos mais fracos e mais fortes quanto à sustentabilidade da Terra Mirim.
Esses dados
estão presentes na tabela do Grau de Satisfação Relativo de todas as dimensões
e aspectos abordados. Pelos resultados, os aspectos sociais da comunidade são
os de maior satisfação dos usuários. Não existem áreas de baixa satisfação na
ecovila, apenas média e alta. Os aspectos de maior satisfação foram o atributo social, a dimensão abrigo e o
atributo humano. O caráter social, comunitário e espiritual são os mais
desenvolvidos na comunidade, definido, portanto sua sustentabilidade social. Os aspectos de
menor satisfação foram o atributo
econômico, a dimensão ocupação e o atributo técnico, correspondendo esses aos
Fatores Críticos do Sucesso abordados pela pesquisadora.
Quanto à dimensão ecológica das
residências e da comunidade, a pesquisadora encontrou algumas contradições. As
residências segundo ela não possuem conforto ambiental e também não foram
construídas com materiais ecológicos. Apesar disso, as respostas dos moradores foram
positivas, se mostrando satisfeitos com as soluções e materiais escolhidos para
a construção. A partir disso a pesquisadora faz a análise de que o conforto
ambiental para os moradores talvez esteja relacionado ás questões subjetivas
com relação ao viver em comunidade. Essas questões referem-se à espiritualidade
e cuidado com a natureza, através de um modo de vida simples, ou seja, um
bem-estar subjetivo dos moradores. A pesquisadora conta que não foi permitida a
entrada dela nas residências dos condomínios, limitando sua análise aos chalés
destinados aos hospedes, mas afirma que os processos adotados na construção
foram os mesmos. Muitos dos resultados de satisfação obtidos na pesquisa estão
relacionados ao trabalho social praticado pela Terra Mirim e seu caráter espiritual.
As questões de maior insatisfação dos
usuários estão relacionadas ao fato da comunidade não conseguir produzir todo
alimento necessário para seu consumo, além de não conseguir recurso financeiro
a partir agricultura orgânica. Muitos moradores precisam trabalhar fora da
comunidade para conseguir os recursos que garantem sua manutenção, pois apenas
os recursos advindos de cursos, hospedagens e palestras. Também não estão
satisfeitas com a reciclagem, pois não há um projeto concreto dentro da
comunidade com relação a isso. Esses resultados demonstram que existe certa
fragilidade na dimensão econômica da comunidade. Outras questões de
insatisfação estão ligadas a sustentabilidade ecológica, inexistente na ecovila
segundo a pesquisadora. Essas questões são tratamento de esgoto, permacultura e
uso de materiais ecológicos nas edificações, reciclagem do lixo, uso de energia
renovável. Então, apesar de da integração da ecovila à região, não possui
sustentabilidade em todos esses aspectos. Sendo que a sustentabilidade
ecológica não é uma prioridade da ecovila estudada.
Na conclusão do trabalho a pesquisadora
faz algumas pontuações importantes, como o fato das edificações da comunidade estarem
no mesmo nível do rio e da lagoa presente no terreno, o que pode provocar
problemas com relação à qualidade de vida dos moradores. Esses fatores além de
outros menores comentados pela autora demonstram falta de planejamento da
comunidade e problemas relacionados à sustentabilidade ecológica.
A autora destaca o trabalho como uma tentativa
de propor um método que possa avaliar e gerenciar a sustentabilidade em
comunidades, bairros e cidades, e que contribua no processo de adaptação dos
assentamentos humanos à sustentabilidade real, avaliando as potencialidades e problemas
para que seja possível dar as soluções mais adequadas a cada caso. Ao analisar
a sustentabilidade na ecovila Terra Mirim a autora identifica uma falta de
desenvolvimento da sustentabilidade ecológica e ressalta a importância de haver
uma integração entre as dimensões da sustentabilidade abordadas no trabalho
(ecológica, social/comunitária, cultural espiritual), para que se consiga
atingir a sustentabilidade real. A autora destaca também que esse tipo de
ferramenta permite avaliar se os moradores da comunidade possuem o conhecimento
dos conceitos de ecovila e sustentabilidade ecológica. No caso da Terra Mirim,
alguns moradores não conheciam os conceitos propostos pela GEN. De modo geral o
trabalho também busca levantar questionamentos quanto às práticas de
sustentabilidade adotadas nesses assentamentos.
Veja trabalho completo aqui
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